terça-feira, 31 de agosto de 2010

Crônica Interessante...

Meu professor de redação leu pra gente uma crônica hilária do Veríssimo (sou suspeita pra falar, porque racho o bico com ele). Então tá aqui pra quem quiser ver, se chama PEÇA INFANTIL e eu retirei do livro O nariz e Outras Crônicas (capa abaixo)


A professora começa a se arrepender de ter concordado (”Você é a única que tem temperamento para isto”) em dirigir a peça quando uma das fadinhas anuncia que precisa fazer xixi. é como um sinal. todas as fadinhas decidem que precisam, urgentemente, fazer xixi.
— Está bem, mas só as fadinhas — diz a professora. — e uma de cada vez!
Mas as fadinhas vão em bando para o banheiro.
— Uma de cada vez! uma de cada vez! e você, onde é que pensa que vai?

— Ao banheiro.

— Não vai, não.

— Mas tia…

— Em primeiro lugar, o banheiro já está cheio. Em segundo lugar, você não é fadinha, é caçador. Volte para o seu lugar.
Um pirata chega atrasado e com a notícia de que sua mãe não conseguiu terminar a capa. Serve uma toalha?
— Não. Você vai ser o único de capa branca. É melhor tirar o tapa-olho e ficar de anão. Vai ser um pouco engraçado, oito anões, mas tudo bem. Por que você está chorando?

— Eu não quero ser anão.

— Então fica de lavrador.

— Posso ficar com o tapa-olho?

— Pode. Um lavrador de tapa-olho, tudo bem.

— Tia, onde é que eu fico?
É uma margarida.
— Você fica ali.
A professora se dá conta de que as margaridas estão desorganizadas.
— Atenção, margaridas! Todas ali. Você não. Você é coelhinho.

— Mas meu nome é margarida.

— Não interessa! Desculpe, a tia não quis gritar com você. Atenção, coelhinhos. todos comigo. Margaridas ali, coelhinhos aqui. Lavradores daquele lado, árvores atrás. árvore, tira o dedo do nariz. Onde é que estão as fadinhas? Que xixi mais demorado!

— Eu vou chamar.

— Fique onde está, lavrador. Uma das margaridas vai chamá-las.

— Já vou.

— Você não, margarida! Você é coelhinho. Uma das margaridas. Você. Vá chamar as fadinhas. Piratas, fiquem quietos!

— Tia, o que é que eu sou? Eu esqueci o que eu sou.

— Você é o sol. Fica ali que depois a tia… Piratas, por favor!
As fadinhas começam a voltar. Com problemas. Muitas se enredaram nos seus véus e não conseguem arrumá-los. Ajudam-se mutuamente mas no seu nervosismo só pioram a confusão.
— Borboletas, ajudem aqui! — Pede a professora.
Mas as borboletas não ouvem. As borboletas estão etéreas. As borboletas fazem poses, fazem esvoaçar seus próprios véus e não ligam para o mundo. A professora, com a ajuda de um coelhinho amigo, de uma árvore e de um camponês, desembaraça os véus das fadinhas.
— Piratas, parem. O próximo que der um pontapé vai ser anão.
Desastre: quebrou uma ponta da lua.
— Como é que você conseguiu isso? — pergunta a professora sorrindo, sentindo que o seu sorriso deve parecer demente.

— Foi ela!

A acusada é uma camponesa gorda que gosta de distribuir tapas entre os seus inferiores.

— Não tem remédio. Tira isso da cabeça e fica com os anões.

— E a minha frase?
A professora tinha esquecido. A lua tem uma fala.
— Quem diz a frase da lua é, deixa ver… o relógio.

— Quem?

— O relógio. Cadê o relógio?

— Ele não veio.

— O quê?

— Está com caxumba.

— Ai, meu Deus. Sol, você vai ter que falar pela lua. Sol, está me ouvindo?

— Eu?

— Você, sim senhor. Você é o sol. Você sabe a fala da lua?

— Me deu uma dor de barriga.

— Essa não é a frase da Lua.

— Me deu mesmo, tia. Tenho que ir embora.

— Está bem, está bem. Quem diz a frase da lua é você.

— Mas eu sou caçador.

— Eu sei que você é caçador! Mas diz a frase da lua! Eu não quero discussão!

— Mas eu não sei a frase da lua.

— Piratas, parem!

— Piratas, parem! Certo?

— Eu não estava falando com você. Piratas, de uma vez por todas…
A camponesa gorda resolve tomar a justiça nas mãos e dá um croque num pirata. A classe unida avança contra a camponesa, que recua, derrubando uma árvore. As borboletas esvoaçam. Os coelhinhos estão em polvorosa. A professora grita:
— Parem! Parem! A cortina vai abrir. Todos a seus lugares. Vai começar!

— Mas, tia, e a frase da lua?

— “Boa-noite, sol”.

— Boa-noite.

— Eu não estou falando com você!

— Eu não sou mais o sol?

— É. Mas eu estava dizendo a frase da lua. “Boa-noite, sol.”

— Boa-noite, sol. boa-noite, sol. Não vou esquecer. Boa-noite, sol…

— Atenção, todo mundo! Piratas e anões nos bastidores. Quem fizer um barulho antes de entrar em cena, eu esgoelo. Coelhinhos nos seus lugares. Árvores para trás. Fadinhas, aqui. Borboletas, esperem a deixa. Margaridas, no chão.
Todos se preparam.
— Você não, margarida! Você é o coelhinho!
Abre o pano.

Espero que tenham curtido, beijos L.E

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